“Pois os sonhos precisam também de ser substituídos... Sozinhos, de per si, nunca terminam e sobrevivem a si mesmos, sabe? Agora procuro de preferência os locais em que um dia fui feliz, feliz à minha maneira, e tento pela imaginação imprimir ao presente a forma do passado que não volta, ou então evocar esse próprio passado; e então, como uma sombra, ponho-me muitas vezes a dar voltas sem objetivo pelas ruelas de Petersburgo. Lembro-me neste momento, por exemplo, de que faz agora um ano, ia eu por este passeio, a esta mesma hora, tão só e triste como hoje. E recordo que os meus pensamentos de então eram tão tristes como os de agora, e se bem que o passado não seja melhor, parece-nos sempre que o foi, como se tivéssemos então vivido mais placidamente e não tivéssemos sentido ao de cima da alma essa vaga melancolia que agora nos persegue; que não sentíamos esses remorsos de consciência que nos atormentam de um modo tão doloroso e persistente, e não nos deixam um momento de repouso, nem de dia, nem de noite. E uma pessoa abana a cabeça e murmura: “Como os anos passam depressa!” E pergunta ainda: “Que fizeste durante esse tempo? Chegaste realmente a viver ou não?” “Olha, dizemos nós para nós mesmos, repara que frio faz neste mundo. Basta que passem mais uns anos para que chegue a espantosa solidão, a trêmula velhice que traz consigo a tristeza e a dor. O teu mundo fantástico há de perder então as suas cores, murcharão e morrerão os teus sonhos, e como as folhas amarelas que tombam das árvores, também eles cairão de ti...” Ó Nástienhka! Que tristeza então vermo-nos sozinhos, completamente sozinhos, e não termos de que nos lamentarmos... nem isso, ao menos! Pois tudo aquilo que perdemos nada era, nada mais do que um zero, um simples zero: apenas uma ilusão.
[...] Meu Deus! Um momento de felicidade! Sim! Não será isso bastante para preencher uma vida?”
NOITES BRANCAS (1848)
FIÓDOR DOSTOIÉVSKI - (1821-1881)



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