RECEPTÁCULUM


Segunda-feira , 15 de Junho de 2009


DESPEDIDA

O amanhã... Será como um raio

de luar que escapou

atrás da densa nuvem.

Ele descerá sobre mim

e se encarregará de por

o teu corpo no meu

e abriremos caminhos

iluminados.

O amanhã tecerá com arte

de sonhação

o que de real

e colocará a tua voz no meu ouvido

a tua imagem nos meus olhos

e terei que armar um corpo

vivo, inteiro,

dentro de mim...

 

Valdenides Cabral - Poetisa potiguar - Pulsações (1999)

Escrito por Glória às 21h06
[ ] [ envie esta mensagem ]

Quarta-feira , 10 de Junho de 2009


SÚPLICA

 

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.


(MEU DEUS, ME DÊ A CORAGEM, Clarice Lispector)

Escrito por Glória às 17h29
[ ] [ envie esta mensagem ]

Quinta-feira , 28 de Maio de 2009


SELO-PRÊMIO "JOVENS QUE PENSAM"

Agradecendo ao primo Dilberto Rosa (www.osmorcegos.blogspot.com) pela indicação do Receptaculum ao selo abaixo:

 

"Tudo é possível, só eu impossível." (Carlos Drummond de Andrade)

Escrito por Glória às 09h29
[ ] [ envie esta mensagem ]

Quinta-feira , 14 de Maio de 2009


"VISTO DEMAIS. A VISÃO FOI REENCONTRADA EM TODOS OS ARES.

POSSUÍDO DEMAIS. RUMORES DAS CIDADES À NOITE, E AO SOL, E SEMPRE.

CONHECIDO DEMAIS. AS PARADAS DA VIDA. - Ó RUMORES E VISÕES!

PARTIDA NA AFEIÇÃO E NO RUÍDO NOVOS!

 

 

Arthur Rimbaud - Iluminações (Painted Plates)

Tradução de Lêdo Ivo

Escrito por Glória às 16h00
[ ] [ envie esta mensagem ]

Terça-feira , 14 de Abril de 2009


Álvaro de Campos

 

Passagem das Horas

Trago dentro do meu coração,  
Como num cofre que se não pode fechar de cheio,  
Todos os lugares onde estive,  
Todos os portos a que cheguei,  
Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias,  
Ou de tombadilhos, sonhando,  


E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
 

Não sei se a vida é pouco ou demais para mim.  
Não sei se sinto de mais ou de menos, não sei  
Se me falta escrúpulo espiritual, ponto-de-apoio na inteligência,  
Consangüinidade com o mistério das coisas, choque  
Aos contatos, sangue sob golpes, estremeção aos ruídos,  
Ou se há outra significação para isto mais cômoda e feliz.  

Seja o que for, era melhor não ter nascido,  
Porque, de tão interessante que é a todos os momentos,  
A vida chega a doer, a enjoar, a cortar, a roçar, a ranger,  
A dar vontade de dar gritos, de dar pulos, de ficar no chão, de sair  
Para fora de todas as casas, de todas as lógicas e de todas as sacadas,  
E ir ser selvagem para a morte entre árvores e esquecimentos,  
Entre tombos, e perigos e ausência de amanhãs,  
E tudo isto devia ser qualquer outra coisa mais parecida com o que eu penso,  
Com o que eu penso ou sinto, que eu nem sei qual é, ó vida.  

Cruzo os braços sobre a mesa, ponho a cabeça sobre os braços,  
É preciso querer chorar, mas não sei ir buscar as lágrimas...  
Por mais que me esforce por ter uma grande pena de mim, não choro,  
Tenho a alma rachada sob o indicador curvo que lhe toca...  
Que há de ser de mim?  Que há de ser de mim?  

Torna-me humano, ó noite, torna-me fraterno e solícito.  
Só humanitariamente é que se pode viver.  
Só amando os homens, as ações, a banalidade dos trabalhos,  
Só assim - ai de mim! -, só assim se pode viver.  
Só assim, ó noite, e eu nunca poderei ser assim!  
  
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,  
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.  
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,  
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.  
Amei e odiei como toda gente,  
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,  
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo.  

Escrito por Glória às 09h09
[ ] [ envie esta mensagem ]
Busca na Web: