RECEPTÁCULUM


Quarta-feira , 20 de Agosto de 2008


“Pois os sonhos precisam também de ser substituídos... Sozinhos, de per si, nunca terminam e sobrevivem a si mesmos, sabe? Agora procuro de preferência os locais em que um dia fui feliz, feliz à minha maneira, e tento pela imaginação imprimir ao presente a forma do passado que não volta, ou então evocar esse próprio passado; e então, como uma sombra, ponho-me muitas vezes a dar voltas sem objetivo pelas ruelas de Petersburgo. Lembro-me neste momento, por exemplo, de que faz agora um ano, ia eu por este passeio, a esta mesma hora, tão só e triste como hoje. E recordo que os meus pensamentos de então eram tão tristes como os de agora, e se bem que o passado não seja melhor, parece-nos sempre que o foi, como se tivéssemos então vivido mais placidamente e não tivéssemos sentido ao de cima da alma essa vaga melancolia que agora nos persegue; que não sentíamos esses remorsos de consciência que nos atormentam de um modo tão doloroso e persistente, e não nos deixam um momento de repouso, nem de dia, nem de noite. E uma pessoa abana a cabeça e murmura: “Como os anos passam depressa!” E pergunta ainda: “Que fizeste durante esse tempo? Chegaste realmente a viver ou não?” “Olha, dizemos nós para nós mesmos, repara que frio faz neste mundo. Basta que passem mais uns anos para que chegue a espantosa solidão, a trêmula velhice que traz consigo a tristeza e a dor. O teu mundo fantástico há de perder então as suas cores, murcharão e morrerão os teus sonhos, e como as folhas amarelas que tombam das árvores, também eles cairão de ti...” Ó Nástienhka! Que tristeza então vermo-nos sozinhos, completamente sozinhos, e não termos de que nos lamentarmos... nem isso, ao menos! Pois tudo aquilo que perdemos nada era, nada mais do que um zero, um simples zero: apenas uma ilusão.

[...] Meu Deus! Um momento de felicidade! Sim! Não será isso bastante para preencher uma vida?”

 

 

NOITES BRANCAS (1848)

FIÓDOR DOSTOIÉVSKI -   (1821-1881)

Escrito por Glória às 16h27
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Segunda-feira , 04 de Agosto de 2008


Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue...
Se sentir saudades, mate-a!
Se perder um amor, não se perca!
Se achá-lo, segure-o.
Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala.
O mais, é nada!


Fernando Pessoa

Escrito por Glória às 07h45
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Quarta-feira , 23 de Julho de 2008


GRACILIANO RAMOS

 

 

por Ariano Suassuna

“João Cabral de Melo Neto me acusava de apresentar um sertanejo falsificado. Eu digo, olhe não é falsificado não. O Fabiano de Vidas secas é um sertanejo. Agora, Graciliano só via no sertão os sertanejos que eram parecidos com ele. Reforçava o lado prático dele, despojado, calado. E eu não sou despojado. O pessoal tem horror, que é errado escrever com adjetivos. Eu só sei escrever com adjetivos. Dizem que o período tem que ser curto e às vezes eu faço períodos longos. Eu sou muito diferente, eu preciso de outra coisa. Não é que meu sertanejo seja falsificado não, nem o dele. É que cada um de nós vê diferente. Ele se identificava mais com o sertanejo caladão. E deviam falar nesse negócio de ausência de adjetivos e períodos curtos. E eles inclusive escreviam desse jeito, para imitar Graciliano. Aí eu disse: ‘olhe, vocês estão transformando um cacoete, aquilo que é apenas uma característica do mestre (Graciliano era um mestre)’”.

Fonte: Preá – Revista Cultural do Rio Grande do Norte. n. 14, out. 2005 – Gustavo Porpino e Racine Santos.

Escrito por Glória às 10h58
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Segunda-feira , 14 de Julho de 2008


AOS QUE PASSAM PELA NOSSA VIDA

 

Cada um que passa em nossa vida passa sozinho...
Porque cada pessoa é única para nós,
e nenhuma substitui a outra.
Cada um que passa em nossa vida passa sozinho,
mas não vai só...
Leva um pouco de nós mesmos
e nos deixa um pouco de si mesmos.
Há os que levam muito,
mas não há os que não levam nada.
Há os que deixam muito,
mas não há os que não deixam nada.
Esta é a mais bela realidade da vida...
A prova tremenda de que cada um é importante
e que ninguém se aproxima do outro por acaso...

 

 

Saint-Exupery

 

Escrito por Glória às 16h35
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Sexta-feira , 27 de Junho de 2008


Dedicado à Verônica(foto), minha irmã, que adora essa música, dando continuidade aos posts femininos.

 

 

 

 

 

 

Como Nossos Pais

Elis Regina

Composição: Belchior

Não quero lhe falar,
Meu grande amor,
Das coisas que aprendi
Nos discos...

Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar
Eu sei que o amor
É uma coisa boa
Mas também sei
Que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa...

Por isso cuidado meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram e o sinal
Está fechado prá nós
Que somos jovens...

Para abraçar seu irmão
E beijar sua menina na rua
É que se fez o seu braço,
O seu lábio e a sua voz...

Você me pergunta
Pela minha paixão
Digo que estou encantada
Com uma nova invenção
Eu vou ficar nesta cidade
Não vou voltar pro sertão
Pois vejo vir vindo no vento
Cheiro da nova estação
Eu sei de tudo na ferida viva
Do meu coração...

Já faz tempo
Eu vi você na rua
Cabelo ao vento
Gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança
É o quadro que dói mais...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo o que fizemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Ainda somos os mesmos
E vivemos
Como os nossos pais...

Nossos ídolos
Ainda são os mesmos
E as aparências
Não enganam não
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém
Você pode até dizer
Que eu tô por fora
Ou então
Que eu tô inventando...

Mas é você
Que ama o passado
E que não vê
É você
Que ama o passado
E que não vê
Que o novo sempre vem...

Hoje eu sei
Que quem me deu a idéia
De uma nova consciência
E juventude
em casa
Guardado
por Deus
Contando vil metal...

Minha dor é perceber
Que apesar de termos
Feito tudo, tudo
Tudo o que fizemos
Nós ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Ainda somos
Os mesmos e vivemos
Como os nossos pais...

Escrito por Glória às 15h43
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